sábado, agosto 31, 2002

Agosto 2002 VII

Dias depois voltei à terra, no final de Agosto à festa da Fundada, e lá estava eu. Durante estes anos todos não escondi a ninguém que gostava de dançar, e gosto bastante, é das coisas que mais gosto de fazer, sobretudo quando estou triste, liberta-me.

Curiosamente, nesta festa dancei com o Rui, deve ter sido a primeira e a única vez, embora ele não se ajeitasse muito, adorei dançar com ele. E é praticando é que se aprende, sempre gostei de pessoas que não desistem, e ele era assim, era a ideia que eu tinha. Mas tenho que admitir, que houve algo que me deixou com ciúmes, alguém ensinou-lhe a dançar e não fui eu. Talvez esta fosse uma indicação de que me estava a iludir, talvez quem lhe tivesse ensinado era mais importante que eu.

Mas esta dúvida desvaneceu-se quando, mais uma vez, eu cansada de tanto dançar, se é que eu me canso de dançar, sentei-me e ele pouco depois veio fazer-me companhia.

Acho que me estou a enganar, quantas e quantas vezes me disse isto, e até hoje revendo tudo isto, acredito que ele sentiu alguma coisa por mim.

quarta-feira, agosto 21, 2002

Agosto 2002 VI


Quando cheguei a Lisboa, e já sem saber o que fazer, tive de tomar uma decisão, eu tinha de partilhar este sentimento com alguém. Este segredo já estava a dar cabo de mim, e o sentimento em vez de diminuir, aumentava. Só tinha uma certeza, não o podia dizer às minhas primas, tinha de ser alguém que não os conhecesse, era a forma de garantir que nada interferisse na minha relação com eles os dois. E escolhi a Isabel, uma grande amiga minha de Lisboa, que também tem raízes lá, mas como não os conhecia, garantia o meu segredo, além claro de confiar nela, sei que mesmo que os conhecesse ela não o diria, ela sabe que eu iria reagir mal. Mas a primeira coisa que me disse foi que eu era parva, nunca devia ter escolhido a felicidade dos outros em detrimento da minha.

A única coisa que eu sabia é que não podia ser feliz, com a infelicidade dos outros, e isso mantinha a minha coerência, a minha maneira de ser, de outra maneira deixava de ser eu. Mal ou bem, eu gosto de mim assim, e orgulho-me de fazer o que os outros não fazem.

Durante algum tempo, só falava desta situação, foi até esgotar estava a precisar, foram anos de silêncio, e senti-me melhor quando falei sobre o assunto.

segunda-feira, agosto 19, 2002

Agosto 2002 V

(...)
A seguir à feira, ainda fiquei uma semana. Durante essa semana o Rui esteve a trabalhar em Lisboa, enquanto eu e o pessoal que estavam de férias, íamos ao rio, ao Bar da Vila, e assim fomos passando a semana.
No fim-de-semana seguinte, no Vale da Urra houve festa, e claro que nós fomos.
Além das situações de costume, como por exemplo, o Rui manter-se fechado na sua concha, e não falar muito. Proporcionou-se uma situação diferente.

Como é que eu poderei explicar, eu, a Manuela, o Victor, o Pedro e o Carlos, estávamos na festa, ora a dançar, ora na conversa… e claro eles de volta das imperiais… só que desta vez exageraram um bocadinho, e o Pedro sem se controlar começou a falar dos sentimentos do Victor em relação à minha prima Manuela, a situação complicou-se um pouco porque o Victor começou-se a sentir incomodado com a situação, e com toda a razão, afinal eram os sentimentos dele… a conversa ainda se prolongou durante um tempo, e para que o Pedro não dissesse mais do que já tinha dito, acabámos por vir embora. E para que o Victor e a minha prima estivessem juntos nesse dia, quase me obrigaram a vir com o Carlos que estava lá a acompanhar toda a conversa. O Carlos que tinha uma paixão interminável pela minha prima Cristina que se tinha casado à pouco.

Na festa ainda tive a oportunidade de estar na conversa com o Luís, nada de muito especial, mas o simples facto de não discutir com ele, já era muito positivo, e começava a torna-se hábito, o que me deixava muito feliz. Até desconfiei de uma moça que estava com ele, espero que seja o que estou a pensar, não por mim, mas por ele.

Depois da festa, quando chegámos à aldeia, o Carlos também levado pelo álcool, meio sem saber o que dizia, e revoltado com tudo o que lhe aconteceu, perguntou-me: “O que é que as mulheres de Lisboa viam nos homens de lá?”, um verdadeiro preconceito, perguntei-lhe se eles também não eram homens, ele não satisfeito com a minha resposta, dei-lhe outra. Foi a primeira vez que admiti que tinha um interesse por alguém de lá, mas não era por preconceito que não admiti antes, era pelo enredo em que me tinha metido. Disse-lhe que não sabia se gostava, mas que havia alguém que conseguia apaixonar-me todos os anos, quando saía da terra era capaz de ficar uns meses a pensar nele, e depois com o meu ritmo de vida em Lisboa, as memórias acabavam por desvanecer. No ano a seguir quando se aproximava a altura de voltar à terra lembrava-me do que se tinha passado no ano anterior, como se na minha memória passasse um filme. Chegava o momento de o encontrar, olhava para ele e pensava já passou, era como se ele não me dissesse nada, e tudo o que eu tinha vivido deixasse de ter algum significado, isto no início da semana. A meio da semana já olhava para ele com outros olhos, e no final da semana já não me queria ir embora por causa dele, era como se ficasse entranhado em mim, todo aquele jeito dele, quase sem jeito, que eu acho que alimentava o meu lado materno, era como se quisesse cuidar dele, e todo este conjunto de sentimentos fazia-me bem, acabava por me ir embora e começava o ciclo todo de novo. E o meu interesse acabava por desvanecer até o próximo ano.

Depois dizer tudo isto, com estas ou outras palavras, claro que o Carlos quis saber quem era e eu não disse, fartou-se de dizer nomes para ver se me descaía, curiosamente começou pelo Luís. Disse mais de vinte nomes, até de pessoas que não conhecia, e o mais giro foi ouvi-lo dizer o nome do Rui, eu ficar nervosa, e ele dizer o Rui não. Porque é que para ele, não podia ser o Rui? Não sei também não lhe perguntei, eu só queria acabar a conversa. Mas achei curiosa a opinião dele. Mas isto só prova que nos sentimentos não se manda, assim como mostrava que eu estava a conseguir esconder os meus sentimentos, ainda que confusos, em relação ao Rui. Mas por causa do estado em que ele estava, acredito que no dia a seguir, já não se lembrasse da conversa, o que era positivo para mim, se não era capaz de não descansar até descobrir quem era, e aí todo o meu esforço teria sido em vão, e eu já tinha conseguido tanto.
Além disso, como no dia a seguir vim para Lisboa, e não o vi entretanto, acabou por se esquecer, e eu fiquei a salvo. E o segredo que começava a ser de anos estava a salvo.

domingo, agosto 18, 2002

Agosto 2002 IV

Outras situações se destacam, lembro-me de um domingo, ele ter ido à festa por cinco minutos, pois ele ia para Lisboa naquele dia, cinco minutos foi o tempo que ali teve e foram cinco minutos que teve comigo, o que é isto? O que é que o fez estar ali, e logo comigo? Eu tinha de ter algum significado para ele, não fazia sentido ser de outra maneira. Mas ao mesmo tempo eu podia me estar a enganar, podia? Não sei! Mas a iludir-me estava de certeza.

O facto de eu gostar de dançar, e ele várias vezes dizer para lhe ensinar, mas a realidade é que quando eu dizia “Vamos!”, ele nunca vinha.

(...)

São situações isoladas, mas que no seu conjunto devem representar algo ou representaram…

sábado, agosto 17, 2002

Agosto 2002 III

Tenho noção que abertamente nunca me meti com ele, mas não o mandava embora quando ele se metia comigo, isso fazia-me bem, imaginava que o meu sentimento também era correspondido, mas ao mesmo tempo, provocava uma angústia tão grande, afinal eu não podia fazer grande coisa, eu não me conseguia libertar do peso de poder magoar o Luís.
E não era só isso, quando me comecei a aperceber, que de alguma forma para ele estar à vontade comigo, ele bebia um pouco, comecei a pôr isso em causa também. Eu tinha de ter a certeza do que se estava a passar, cheguei a isolar-me do grupo, para ver o que acontecia, e curiosamente, ele vinha para onde eu estava. Se tivesse acontecido uma vez, eu nunca poderia escrever isto, porque haveria sempre a dúvida, mas aconteceu vezes sem conta, eu tinha de significar algo para ele, definitivamente, tinha. Bastava ele beber um pouco, e onde eu estivesse em pé ou sentada, ele estaria também. Não pode ser uma simples paranóia minha. Eu não estou a falar de hipotéticas situações, são situações concretas, são comportamentos que sem sentimentos implícitos, não fazem nenhum sentido. Naquela altura, o Rui até podia não ter consciência do que se estava a passar com ele, mas ele estava confuso, alguma coisa se passava com ele, e tinha de ter alguma importância, eu acredito nisto como na certeza do ar que respiro agora.

sexta-feira, agosto 16, 2002

Agosto 2002 II

E porque é que não investi nesta relação, a resposta já a dei… o Luís, sempre o Luís… já o tinha magoado, não o ia magoar mais.

Sobretudo, porque este ano ele já estava a dar provas de me aceitar como amiga, estava mais calmo, já conseguia falar com ele sem discutir. Naturalmente, ainda não tínhamos chegado à cumplicidade de anos anteriores, e talvez nunca mais chegássemos, mas falar com ele cordialmente, já era bom, muito bom para mim.

No entanto, a minha proximidade ao Rui não diminuía, muito pelo contrário, ele sem saber conquistava-me mais um pouco todos os dias que estava com ele, e até hoje não percebo porquê. As brincadeiras com ele aumentavam, e nem sempre era eu que começava, muito pelo contrário, afinal eu estava decidida a cumprir a minha promessa e nada, nem ninguém, me demovia dela. E o facto de ninguém saber, impedia que me incentivassem a lutar por este sentimento que crescia sem eu dar conta.
Mas havia situações em que ele me provocava, me seduzia, era como se quisesse ultrapassar toda e qualquer razão, não haviam explicações possíveis, e aí eu punha tudo em causa. O interesse que ele pelas minhas coisas de forma constante, como se quisesse saber tudo, o estar perto de mim, o tocar-me… isso acontecia. Tinha um fascínio qualquer pelo meu cabelo, por vê-lo solto e insistia nisso, quanto mais ele falava mais eu o trazia apanhado, nem que fosse para lhe dar um pretexto para ele falar comigo, e como resultava!

quinta-feira, agosto 15, 2002

Agosto 2002

Entre os finais de Julho e princípios de Agosto, tive 20 dias na terra, e tive oportunidade de aproveitar o tempo e as festas da região. Ir ao rio com o pessoal, fazer travessuras, era excelente estar com eles nesta altura do ano, eram divertidos e tinha um novo mundo a explorar, a minha Lisboa era sempre mais cinzenta que a verde Vila de Rei.
Houve dias em que tive a maior parte do tempo a falar com o Rui e os restantes dias ele quase não falava ou simplesmente não vinha porque na altura se encontrava a trabalhar em Lisboa. Curiosamente, uma Lisboa que ele odiava, falamos várias vezes sobre isso, o trânsito que ele detestava, as pessoas que eram distantes, o tempo que era cinzento, e o facto de ele só trabalhar, só trabalhar, só trabalhar.

Só este ano é que percebi o motivo pelo qual o Rui tinha atitudes contraditórias comigo, eu já tinha percebido que ele era tímido, mas só este ano me apercebi o quanto ele podia ser tímido, apercebi-me que nos dias em que ficava horas a falar comigo era os dias em que ele bebia mais um pouco, talvez uma forma de se libertar da sua timidez. Mas o mais espantoso, embora não tenha a certeza, houve vezes que ele dava a entender que bebia para vir falar comigo, mas mesmo depois de alguns anos parece-me ridículo acreditar nisto, parece muito pretensão minha, mas desde aquela altura que tenho esta ideia… e até que ponto pode não ser verdade?

3Doors Down "Here Without You"