Agosto 2002 V
(...)

A seguir à feira, ainda fiquei uma semana. Durante essa semana o Rui esteve a trabalhar em Lisboa, enquanto eu e o pessoal que estavam de férias, íamos ao rio, ao Bar da Vila, e assim fomos passando a semana.
No fim-de-semana seguinte, no Vale da Urra houve festa, e claro que nós fomos.
Além das situações de costume, como por exemplo, o Rui manter-se fechado na sua concha, e não falar muito. Proporcionou-se uma situação diferente.
Além das situações de costume, como por exemplo, o Rui manter-se fechado na sua concha, e não falar muito. Proporcionou-se uma situação diferente.
Como é que eu poderei explicar, eu, a Manuela, o Victor, o Pedro e o Carlos, estávamos na festa, ora a dançar, ora na conversa… e claro eles de volta das imperiais… só que desta vez exageraram um bocadinho, e o Pedro sem se controlar começou a falar dos sentimentos do Victor em relação à minha prima Manuela, a situação complicou-se um pouco porque o Victor começou-se a sentir incomodado com a situação, e com toda a razão, afinal eram os sentimentos dele… a conversa ainda se prolongou durante um tempo, e para que o Pedro não dissesse mais do que já tinha dito, acabámos por vir embora. E para que o Victor e a minha prima estivessem juntos nesse dia, quase me obrigaram a vir com o Carlos que estava lá a acompanhar toda a conversa. O Carlos que tinha uma paixão interminável pela minha prima Cristina que se tinha casado à pouco.
Na festa ainda tive a oportunidade de estar na conversa com o Luís, nada de muito especial, mas o simples facto de não discutir com ele, já era muito positivo, e começava a torna-se hábito, o que me deixava muito feliz. Até desconfiei de uma moça que estava com ele, espero que seja o que estou a pensar, não por mim, mas por ele.
Depois da festa, quando chegámos à aldeia, o Carlos também levado pelo álcool, meio sem saber o que dizia, e revoltado com tudo o que lhe aconteceu, perguntou-me: “O que é que as mulheres de Lisboa viam nos homens de lá?”, um verdadeiro preconceito, perguntei-lhe se eles também não eram homens, ele não satisfeito com a minha resposta, dei-lhe outra. Foi a primeira vez que admiti que tinha um interesse por alguém de lá, mas não era por preconceito que não admiti antes, era pelo enredo em que me tinha metido. Disse-lhe que não sabia se gostava, mas que havia alguém que conseguia apaixonar-me todos os anos, quando saía da terra era capaz de ficar uns meses a pensar nele, e depois com o meu ritmo de vida em Lisboa, as memórias acabavam por desvanecer. No ano a seguir quando se aproximava a altura de voltar à terra lembrava-me do que se tinha passado no ano anterior, como se na minha memória passasse um filme. Chegava o momento de o encontrar, olhava para ele e pensava já passou, era como se ele não me dissesse nada, e tudo o que eu tinha vivido deixasse de ter algum significado, isto no início da semana. A meio da semana já olhava para ele com outros olhos, e no final da semana já não me queria ir embora por causa dele, era como se ficasse entranhado em mim, todo aquele jeito dele, quase sem jeito, que eu acho que alimentava o meu lado materno, era como se quisesse cuidar dele, e todo este conjunto de sentimentos fazia-me bem, acabava por me ir embora e começava o ciclo todo de novo. E o meu interesse acabava por desvanecer até o próximo ano.
Depois dizer tudo isto, com estas ou outras palavras, claro que o Carlos quis saber quem era e eu não disse, fartou-se de dizer nomes para ver se me descaía, curiosamente começou pelo Luís. Disse mais de vinte nomes, até de pessoas que não conhecia, e o mais giro foi ouvi-lo dizer o nome do Rui, eu ficar nervosa, e ele dizer o Rui não. Porque é que para ele, não podia ser o Rui? Não sei também não lhe perguntei, eu só queria acabar a conversa. Mas achei curiosa a opinião dele. Mas isto só prova que nos sentimentos não se manda, assim como mostrava que eu estava a conseguir esconder os meus sentimentos, ainda que confusos, em relação ao Rui. Mas por causa do estado em que ele estava, acredito que no dia a seguir, já não se lembrasse da conversa, o que era positivo para mim, se não era capaz de não descansar até descobrir quem era, e aí todo o meu esforço teria sido em vão, e eu já tinha conseguido tanto.
Além disso, como no dia a seguir vim para Lisboa, e não o vi entretanto, acabou por se esquecer, e eu fiquei a salvo. E o segredo que começava a ser de anos estava a salvo.


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