Fevereiro 2005 VI
Não sei porque é que ele me pediu para ficar, ainda assim eu fiquei, mas seja lá o que ele me tentou dizer, desta vez fui eu que não o compreendi, tentei mas não consegui.
Que nós éramos diferentes, isso eu já sabia toda a gente o é… mas ele deu muita importância a isso. Dei-lhe exemplos de pessoas que conseguiram ultrapassar essa diferença, a minha prima e o marido, ele também era de Vila de Rei, e ela também tinha curso superior e isso não os impediu de ficarem juntos, o mesmo aconteceu com o Jorge e a Telma, certamente tiveram de ultrapassar as dificuldades de terem vivido experiências diferentes, tiveram que ultrapassar a distância que os separava, mas conseguiram, nós não éramos menos que eles, e se tivesse havido boa vontade, nós também teríamos ultrapassado todas estas dificuldades, dificuldades que só existiam na cabeça dele. Mas não teve que ser.Mais tarde, quando o silêncio já tomava conta da situação, voltei a pôr a mão às chaves do carro, e ele voltou-me a pedir para ficar, porquê? Que mais tinha ele para me dizer, que não dizia… que mais criticas ele tinha para me fazer, não sei… apenas lhe respondi: “Nos outros dias eu tinha motivo para chegar tarde a casa, hoje não tenho… e não me apetece discutir com os meus pais.” Arranquei com o carro, e ele disse que o podia deixar ali, apenas respondi que não, levei-o até à estação dos autocarros no Oriente e quando parei o carro, depois de uma viagem em silêncio quase mortal, perguntou-me: “Discutistes com os teus pais?”, olhei chocada para ele e apenas disse: “Que te parece, eu vivo na mesma casa que eles, e é natural que eles não gostem que eu chegue tarde.” Eu sou de Lisboa, mas tenho família, foi o que me apeteceu dizer, mas naquele momento eu só me queria ir embora dali, quando lhe respondi aquilo vi uma coisa que nunca pensei ver, os olhos do Rui estavam brilhantes, disso eu tenho a certeza, ele tinha as lágrimas nos olhos, disse-me para falarmos noutra altura, perante esta proposta sorri e disse quem sabe, mas para mim era uma forma de despachar como outra qualquer, saiu do carro e antes de fechar a porta apenas me disse: “Desculpa!” palavra que ecoa até hoje nos meus ouvidos. Disse-a tão baixinho… até para a dizer sentiu vergonha.

Ele atravessou a estrada, olhei para ele uma última vez, na esperança que fosse mentira, e sem saber como arranquei com o carro, segui viagem até casa lavada em lágrimas, não sei como fiz o caminho, tenho a sensação que não via nada à minha frente... contive as lágrimas e cheguei a casa como se nada fosse, mas sem coração que esse partiu-se e com a viagem foi ficando para trás.


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