Fevereiro 2005 V
Ele disse três coisas que até hoje não me saem da cabeça:Primeiro, com que palavras exactamente já não me recordo, sei que se tratava do que ele tanto faz em Vila de Rei. E o que ele disse, é que não me contava tudo, que andava a fazer não sei o quê em Vila de Rei, e pelos vistos não me queria contar (era um direito dele, desde que não fosse outra mulher, por mim tudo bem), nem nunca lhe tinha perguntado o que ele andava a fazer por lá, não percebo este comentário, mas o pior foi quando ele acrescentou: “nem ao meu irmão eu digo tudo…”, e isto sim não me sai da cabeça, eu acho que percebi o que ele quis dizer, o irmão dele não soube que nós estivemos juntos. E a pergunta que se coloca é: Porquê?! O Luís tem uma namorada, com quem tem um relacionamento, segundo consta já faz alguns anos… não percebo porque é que ele não lhe falou sobre isso. Eu não falar sobre o Luís é uma coisa, por tudo aquilo que já disse anteriormente, mas o Rui não falar com o Luís sobre uma relação comigo é só a confirmação do que disse anteriormente. E acho que até hoje uma relação minha com o Rui ia ser mal vista pelo Luís. Porquê? Ele não refez a vida dele… tenho receio que o Rui tenha abdicado desta relação por causa do irmão, eu fiz isso na altura certa, agora não faz sentido. Mas isto são só suposições pode não ser a verdade.
Tenho que admitir que estas citações são colocadas fora do contexto originar, às quais eu acrescento a minha revolta sobre toda esta situação, que me revira o estômago. 

Segundo, ele faz referência a Lisboa e às pessoas de Lisboa (consequentemente eu) que são mal-educadas e que são más pessoas, e que Lisboa é horrível, por causa do trânsito e outras coisas neste sentido. Eu fiquei horrorizada, puro preconceito. Respondi-lhe que em Vila de Rei também à droga, álcool, e miúdas grávidas com 13 anos… e outras coisas assim, mas é em menor numero porque também são menos pessoas, e que em Lisboa não podemos cumprimentar as pessoas na rua porque somos considerados doidos, porque não conhecemos toda as pessoas que andam na rua, não há comparação possível entre a cidade de Lisboa e a Vila onde todos se conhecem, em que todos andaram na mesma escola. A escola onde eu andei no secundário e posteriormente o Instituto Superior que frequentei tinham tantas ou mais pessoas que o Concelho de Vila de Rei… era loucura o que eu estava a ouvir. Porque é que ele se meteu comigo se sempre soube que eu era de Lisboa. Eu não escondi. Isto sim revoltou-me fui alvo de um preconceito retrógrado de um miúdo (não tem outro nome) que não consegue alargar horizontes. Acho que nunca fui preconceituosa em relação a nada, nem à cor da pele, nem ao estatuto social, à religião, às habilitações literárias, a nada, eu sempre respeitei as pessoas por aquilo que elas são, ou que me dão a conhecer, o seu carácter, a sua personalidade, a sua dignidade, o amor pela vida… isto é o que faz para mim uma pessoa, não a sorte que elas tiveram na vida, as escolhas que fizeram… se eu fosse preconceituosa eu nunca teria gostado do Rui. E como eu gostava do jeito simples dele, daquela atitude séria quase inabalável, o amor que ele tinha à sua terra era bonito, nunca o critiquei. Foi revoltante ter passado por isto.
Por último, e para rematar as situações que daquela conversa mais me marcaram, ditas por ele, neste caso nem foi bem dito, fui eu que me apercebi que ele tinha dificuldades em perceber algumas coisas que eu dizia, e o sentido em que as dizia… acho que mais uma vez o preconceito falou mais alto, e desta vez em relação às minhas habilitações, não que ele tivesse admitido isso, mas percebi isso tarde de mais, o que para mim era claro como água, apercebi-me muito tarde que para ele não era. Nunca pensei que o meu português fosse complicado, muito pelo contrário sempre fiz por falar o mais simples possível, com ele e com qualquer outra pessoa, o falar bonito tem alturas certas, uma entrevista de trabalho, um contacto em que queremos ser bem visto, agora uma conversa com um amigo, um namorado, é para ser bonita, apreciada, divertida… não para estar a competir gramática e vocabulário. Posto isto acho que não mereceria passar pelo que passei. É possível que tudo tenha terminado por causa de um preconceito, mas foi definitivamente uma escolha dele.


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