
Já fazia alguns dias quando o Rui me pediu para ir ter com ele à Gare do Oriente, porque ele ia apanhar o comboio para ir para a terra, tinha uma hora para estar comigo, quando me pediu isto, fiquei tão contente, afinal íamos estar em público e tinha sido ele a pedir-me e não eu a sugerir, mas quando lá cheguei, mais uma vez me arrependi de ter ido, para me voltar a tratar assim. Por fora estava calmíssima na medida do possível, mas por dentro estava como panela de pressão ao lume preste a explodir, e decidir que me ia embora, perguntei-lhe quando é que era o comboio, disse que levava uma meia hora, inventei uma qualquer desculpa e fui-me embora, já não estava a aguentar. Já estava perita em inventar desculpas tudo por causa dele, apanhei metro para longe dali e

chorei numa qualquer casa de banho pública com vergonha de chorar em público, quando me recompus segui em frente com a minha vida. Tinha de ir à Av. Almirante Reis onde trabalha um amigo meu, era a hora de almoço e ele sem saber fez a única coisa que eu precisava naquele momento, no meio da avenida deu-me um enorme abraço, ele nem sabe o bem que me fez, alguém no mundo não tinha vergonha de mim, vergonha de mostrar que tinha carinho por mim. Sem ele saber deu-me forças, as forças que eu precisava naquele momento.

Gosto imenso desse meu amigo, mas por causa disso ele ganhou um lugarzinho especial no meu coração. Quando me cumprimentou pareceria que não me via há anos, mas na realidade não me via no máximo há três dias, e quase todas as semanas nos vimos. Mas o que tem de espantoso foi que ele nunca me cumprimentou assim, foi como se pressentisse que eu precisava. É como se costuma dizer: “
Um amigo conhece-nos melhor num segundo, que um conhecido em mil anos.” E curiosamente, não me voltou a cumprimentar assim.
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