Dezembro 2004 II
Dias depois o meu mundo desabou, o meu chefe chamou-me à parte, o meu contrato estava a chegar ao fim, e eu sabia que a conversa tratava-se do meu contrato, se ia ser renovado ou não. O meu chefe disse que não me iam renovar o contrato, mas claro que não foi isto que destruiu o meu dia, foi quando ele disse, que eu ia ser despedida porque alguém não gostava de mim, como se eu tivesse algum dia sido mal-educada com alguém, ou não tivesse sido profissional… era um verdadeiro pontapé no meu estômago. Eu fiquei chocada, nunca na vida pensei passar por isto. Eu já tinha iniciado mal o meu trabalho ali, quando não fui bem recebida pelos meus colegas, e ainda assim não me revoltei e consegui construir com os colegas que foram ficando um ambiente familiar quase invejável, nunca fui líder em lado nenhum, mas sei que ali fui quase uma mãe para todos eles, eles respeitavam-me pelo que era e pelo que fazia, nunca em lado nenhum alguém tinha um dedo que fosse de alguma coisa para me apontar. Sei que sou muito rígida com as atitudes e comportamentos das pessoas, e não desculpo nem esqueço com facilidade o que me fazem, mas ainda assim não sou tão rígida com os outros como sou comigo… e por isso não entendia o que se estava a passar, como é que uma pessoa que eu devo ter falado no máximo meia dúzia de vezes podia ter alguma coisa contra mim, não fazia sentido nenhum. Que ameaça eu podia representar para aquela pessoa – que neste momento representa a pessoa mais mesquinha que conheci na minha vida. Nunca representei nenhum perigo para ela e como é que uma pessoa com poder se dispõe a eliminar assim uma pessoa que não representa nenhum perigo, para isso eu teria de me sujeitar ao que essa pessoa se sujeitou, e lamento nunca descia tão baixo, para subir depressa. A minha dignidade acima de tudo, pelo menos isso ninguém me tira – poder andar de cabeça erguida. –
Podre, sem trabalho mas com dignidade.
Podre, sem trabalho mas com dignidade. Quando sai da conversa com o meu chefe, todos repararam que eu não estava bem, que tinha olhos de choro, e como tinha chorado indignada com o que me tinha acontecido. Entretanto, fomos todos almoçar, mas logo após o almoço o meu chefe perguntou-me se eu lhe dava autorização para falar sobre o que me tinha acontecido, eu falar sobre o assunto não falava, nem o conseguia fazer sem chorar, mas dei a ele a liberdade de o fazer. Foi uma situação penosa, mas ao mesmo tempo satisfatória, mas não deixava de ser um contraste chocante. Os meus colegas ficaram tão indignados como eu e o meu chefe, não entendiam o porquê desta injusta, eu também não. Mesmo que infrutífero, ver o apoio e a indignação deles foi muito importante para mim.
Afinal não era só ilusão minha, aquela era a minha segunda família. No dia a seguir lá estava eu, para mais um dia de trabalho, com o mesmo rigor de sempre… e ia manter esta postura até ao último dia do contrato.


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