Setembro 2005 XI
E assim foi no dia seguinte ele foi-me buscar a casa e seguimos rumo a casa do meu irmão para lanchar. No caminho para lá portámo-nos bem, falámos sobre trivialidades, e quando chegámos a casa do meu irmão, percebi que o no lanche éramos só nós os quatros, fiquei espantada com a situação, o que estavam ali a fazer aquelas quatro almas a lanchar. O lanche foi calmo até que o meu irmão e o Filipe saíram e a minha cunhada começou a dizer que eu e o Filipe fazíamos um casal bonito, que nos dávamos bem, e que era pena não estarmos juntos. Ainda lhe perguntei se ela simpatizava comigo, visto que ele é um rapaz que não gosta muito de compromissos. Ela teve que concordar comigo, no que estava a dizer, mas a isso acrescentou que nunca o tinha visto ele a falar sobre uma mulher como o fazia de mim. E ela ainda afirmou que ele gostava de mim, que há anos que o via meter-se comigo. Ele fazia isso porque eu sempre lhe dei resposta, e respeita-me porque nunca me deixei levar pelas investidas dele, isso fez com que ele me respeitasse. Nunca fui uma pessoa muito fácil e por isso é que as minhas relações nunca foram duradoiras… mas também digo a que durar é para a vida. 

Não sou pessoa de fingir que sou boazinha para agarrar um homem, eu mostro-me como eu sou, refilona, teimosa mas com um coração enorme, que só me faz cometer erros. Talvez um dia. Acho que hoje em dia a sinceridade assusta e por isso nunca tive muita sorte. Não sou melhor do que ninguém, mas esforço-me.
Quando o meu irmão e o Filipe chegaram o lanche tornou-se num jogo de gato e rato, em que a minha cunhada me empurrava o Filipe, o próprio Filipe alinhava no que ela dizia, o meu irmão não se manifestava e eu para não parecer desmancha-prazeres nem dizia que sim, nem dizia que não, ia empurrando com a barriga. Até que nos viemos embora e eu tive de ficar sozinha com ele, e ai a conversa foi outra.
Estava a meter-se comigo, quando lhe perguntei: “Ainda não desististe de me cantar a cantiga do bandido?” foi ai que o vi pela primeira vez desarmado numa brincadeira comigo, o que vinha a seguir é que eu não estava à espera, e num tom sério diz que noutras alturas o tinha feito, mas que neste momento não.
Eu sempre soube que eu e o Filipe discordávamos de um conjunto de ideias e que por isso tínhamos comportamentos diferentes perante a vida e as escolhas que fazíamos. Eu sei que para ele sou o que corresponde a uma menina bem comportada, é certo que já cometi erros na vida, mas ainda assim não me arrependo do que fiz, também aprendi com os meus erros. Foi a primeira vez que discuti com ele, porque ele deu a entender que eu levava a vida muito a sério, e o que lhe disse é que bem ou mal as escolhas que tinha feito na vida continuavam a ser aquelas em que acreditava, e mesmo ele não concordando eu ia continuar com o meu comportamento sério, como ele disse, na minha vida. Porque é esse comportamento, a minha postura para a vida que me faz sentir-me eu mesma. Então porque mudar se eu estou bem comigo.


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